Der Sturm


 

“A arte sempre oscilou entre a reflexividade e a ilusão.”*

 

Talvez pela influência da minha formação, tenho um grande interesse pela fotografia arquitetônica.

A forma, o estilo e características da construção de uma cidade estão intrinsecamente relacionadas com a sua história. Se observarmos com atenção a arquitetura de uma cidade, ela diz muito a respeito da cultura e do modo de vida de seus habitantes.

 

Em 2008, registrei as primeiras fotos de arquitetura de Nova York pertencentes a esse trabalho, concluído somente em 2013, sendo que a opção de tratamento dessas fotografias foi toda em preto e branco.

Posteriormente, observei que o contraste das sombras com o tratamento em preto e branco, lembravam um pouco a dramaticidade das luzes do Cinema Noir, estilo de filme que sempre impressionou-me, seja pela luz contrastada utilizada nas filmagens, seja a teatralidade da temática.

Iniciei imediatamente uma pesquisa, além dos filmes, fazendo parte dos meus estudos, o movimento que foi precursor do estilo Noir, o expressionismo alemão e também as suas influências na pintura e na xilogravura. Retornei diversas vezes a Nova York. À essa altura, meu trabalho já estava mais direcionado e voltado para o tema. A captação de cada detalhe na arquitetura foi pensada de acordo com o tema Noir. Não seria minha intenção repetir integralmente o que foi demonstrado no cinema, apenas o essencial para a construção do meu novo trabalho. De acordo com James Monaco em “American Film Now”, o filme noir não é um gênero em si, mas um estilo visual e foi exatamente essa característica que serviu de base para o meu projeto.

Lucia Adverse

 

*Stam, Robert – O Espetáculo Interrompido: literatura e cinema de desmistificação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p.19

 

O Reencontro da Aura nas Fotos de Berlim, da fotógrafa Lucia Adverse

Um enorme edifício cinza-claro, com centenas de janelas escuras, reduzindo seu peso proeminente em meio a um céu sombrio, rejeita o plano de fundo num degradê progressivo, tal qual um navio poderoso que corta os oceanos e avança orgulhosamente sua proa arredondada e sua extremidade em perspectiva oblíqua. O prédio tem cerca de quinze andares e centenas de aberturas retangulares, cavidades escuras, todas dispostas em linhas retas. Aqui e ali, manchas mais claras aparecem como se refletissem um outro edifício, cujas aberturas deixassem passar os raios de sol.
Esta é a foto tema que Lucia Adverse escolheu para a exposição “Der Sturm”, onde apresenta sua visão da cidade de Berlim, em vinte e três fotos arquitetônicas, num ambicioso projeto que desafia qualquer historiador de arte!

“Der Sturm” (“A Tempestade”), nada mais é do que uma referência explícita à grande revista cultural de Berlim, que entre 1910 e 1932, foi o verdadeiro trampolim vanguardista e referência da arte em toda a Europa.
Por mais de vinte anos em seus artigos críticos ou exposições na galeria de mesmo nome, em Berlim, “Der Sturm” apresentou tudo que era novo e provocante nas artes visuais, arquitetura, literatura, teatro, música e cinema. Assim, à partir de 1911, é a revista “Der Sturm”, que lança o próprio termo “expressionismo” para descrever a estética desenvolvida pelos dois movimentos artísticos mais revolucionários da Alemanha na época, “Die Brücke” (A Ponte) e “Blaue Reiter” (Cavalo Azul).
Em uma reação contra o impressionismo e o simbolismo, artistas exigiam uma nova forma de expressão, muitas vezes agressiva ou violenta, onde a representação da realidade fosse verdadeiramente privilegiada, banindo o realismo para expressar a subjetividade, o estado da alma e acima de tudo uma revolta contra os problemas sociais, não hesitando por vez, em restaurar o mito do selvagem, para liberar os impulsos mais primitivos.

Apropriando-se explicitamente de um movimento centenário da História da arte européia, a jovem fotógrafa brasileira Lucia Adverse, manifesta imediatamente a mesma vontade de subverter preconceitos, impor o poder expressivo da fotografia e seu poder de transformação da realidade. Sua visão da cidade de Berlim, inspirada pelo periódico “Der Sturm”, oferece-nos vinte e três verdadeiros “quadros fotográficos” arquitetônicos, compostos de acordo com os critérios do mais autêntico expressionismo alemão, como raramente vemos.

A Trajetória de Uma Jovem Fotógrafa Brasileira

Qual foi o caminho percorrido pela artista, para alcançar essa proeza? Sua evolução é significativa.
Lucia Adverse seguiu seus estudos inicialmente em design de interiores, mas a criação em meio a espaços confinados não foi suficiente. Ela derrubou rapidamente as paredes para chegar ao outro lado da decoração, optando por um trabalho externo, uma fotografia que testemunha, interpela e mostra a singularidade das cidades. As cidades… que vasto campo de exploração! Especialmente para uma nativa de Belo Horizonte, grande capital do Estado de Minas Gerais, erguida com prédios tão altos quanto São Paulo e Nova York, mas cercada por sua vez por montanhas, abraçada por colinas que permitem grandes pontos de vista panorâmica.

Graças a uma circulação entre a Europa, os EUA ou o Oriente Médio, a artista entende que para capturar o espírito de uma cidade, o seu estilo, a sua história, mas também a sua evolução potencial futura, temos de saber olhar, e o mais importante, com câmera em punho, devemos também captar sinais, ambientes, luzes, impulso da exploração fotográfica urbana, os indicativos de uma cultura e o estilo de vida dos habitantes.

Há seis anos, Lucia Adverse capturou as primeiras imagens da série de fotos, sobre a arquitetura de Nova York. O preto e branco se impõe como a única maneira de permitir jogar com os contrastes de luz e expressar-se de forma dramática, pretendendo assim, recriar o clima do “Cinema Noir” que ela aprecia e a atmosfera do expressionismo alemão, imbuído por imagens de grandes filmes de referência da década de 1920, cinema mudo em preto e branco, como “O Gabinete do Dr. Caligari“ (1920), ou o famoso filme de ficção científica “Metropolis”, de Fritz Lang (1927), filmado em Berlim.

Lucia Adverse e o filme “Metropolis”

Revi esta obra-prima. Para minha surpresa, a série “Der Sturm” de Lucia Adverse, parece encarnar o universo urbano de “Metropolis”, como se ela tivesse realmente encontrado na Berlim atual, os edifícios da cidade, desenhados por Fritz Lang há quase um século, como numa futura estadia dos eleitos para o ano de 2026, construído dia e noite por trabalhadores robotizados e completamente servis. Nas fotos de Lucia Adverse, surgem também esses edifícios enormes com cavidades retangulares se ladeando, todos escuros, às vezes verticais, às vezes horizontais. Como se a cidade da ficção científica, tomasse forma no concreto contemporâneo da cidade de Berlim, bem onde Fritz Lang imaginou.

No entanto, num olhar atento da fotógrafa, “Metropolis” aparece mais como uma referência, um ponto de partida para o seu trabalho de exploração, diferentemente do que Lucia Adverse nos apresenta, que não é realmente uma área urbana vertical, onde voam aeronaves bi-motores, mas sim, edifícios ou fragmentos isolados da arquitetura, fotografados um a um.

As vinte e três fotos de “Der Sturm”, na verdade revelam uma amostragem da história urbana de Berlim, em todos os momentos da arquitetura local, especialmente porque a artista nos mostra não a arquitetura prestigiosa dos prédios mais famosos da cidade, mas os edifícios da vida comum, escritórios, casas comuns ou simples moradias. Uma pequena casa antiga, com paredes cobertas de hera e uma árvore no quintal, uma grande fachada com detalhes pós-barrocos, uma construção popular em estilo modernista de Bauhaus, dos anos 1930 e sua entrada arquitetural, uma ex-prefeitura ou comuna judaica com portal de quatro cúpulas laterais pequenas, uma série de fachadas modernas em concreto, fábricas ou edifícios de escritórios típicos das últimas décadas do Século XX, e claro, o edifício já mencionado, de quinze andares e sua massa espetacular.

Berlim, cena do crime ?

Além disso, nestas fotos entre os prédios da capital alemã, não vemos nenhum ser humano. Berlim, capital da Alemanha, está vazia. Em uma análise famosa, o filósofo Walter Benjamin comentou sobre a aparente falta de humanos no trabalho fotográfico de Eugène Atget, em Paris por volta de 1900, em bairros ameaçados de extinção. Vemos as ruas desertas de Paris e Benjamin descreve: “Dizemos justamente que Eugène Atget fotografou as ruas como fotografamos a cena de um crime, pois a cena do crime também é deserta. As fotos tem o objetivo de revelar pistas. No trabalho de Atget , as fotografias começam a tornar-se evidências para o julgamento da história. Este é o lugar onde se encontra o seu significado político, seus segredos… e as fotos deixam irrequietos os expectadores”. (1)

No trabalho de Lucia Adverse na cidade de Berlim, onde são incorporados enormes edifícios como no filme “Metropolis”, seria essa uma perturbadora cena do crime? Estaria a fotógrafa nos embarcando em um processo de história contemporânea, onde as condições das grandes cidades que vivemos, colocam em risco a evolução da natureza? O ambiente geral dessas vinte e três fotos pode nos fazer acreditar que sim.
Fritz Lang disse que ele desenhou os cenários do seu futuro à partir dos arranha-céus vistos em Nova York, em 1924, que lhe pareceram “como barcos a vela verticais, numa decoração luxuosa suspensa em um céu escuro para deslumbrar, divertir e fascinar” – este céu sombrio que fascina, aparece também nas fotos de Lucia Adverse. Ela por sua vez, acentua ao extremo esses contrastes no seu preto e branco, cortando casas e edifícios sob o céu preto ou cinza degradê, imergindo-nos num contexto urbano, onde até mesmo fotografar à luz do dia, parece ter sido feito à sombra da noite. Portanto, a fotógrafa despeja na noite, ainda poderosas luzes iluminando fachadas de edifícios, muitas vezes riscadas por entre os galhos de árvores nuas, mostrando seus esqueletos de inverno, reproduzindo o efeito noite americana (tecnicamente falando), que se estende ao longo de Berlim, como se toda a cidade vivesse sob um eclipse solar permanente, como se o sol tivesse perdido seu poder de radiação e virou negro eternamente.

Lucia Adverse é certamente uma fã do “Film Noir”. Entre os imóveis abandonados por seus habitantes, as árvores nuas e um sol quase em extinção em suas fotos, a cidade de Berlim parece à beira de viver o drama mais escuro, talvez até mesmo a sua aniquilação.

O Reencontro da Aura

No entanto, em última análise, não é isso que vamos lembrar da série “Der Sturm”. Sua estranheza luminosa e perturbadora, acentua a impressão de estarmos diante de uma decoração um pouco irreal, onde retemos a harmonia, o poder e a extrema beleza plástica. Com o seu aspecto expressionista, Lucia Adverse fez planos com extremo rigor e dá origem à fachadas e blocos, cuja linha de fuga é obliqua, truncados em close-ups nos andares dos edifícios, ou uma pirâmide de altos tubos metálicos translúcidos, ou longas tomadas verticais, ou duas longas filas de paralelepípedos antigos estabelecidos no asfalto, forrados obliquamente com uma marcação de pedestres mais recente, onde a rua escapa de nossos olhos.

Assim como fez em uma série anterior de fotos de curvas inspiradas na arquitetura de Oscar Niemeyer, grande arquiteto tão presente em Belo Horizonte, Lucia Adverse tem modelos pictóricos inspirados diretamente da abstração. Esta nova série em forma de fotos expressionistas de Berlim, mostram seu grande domínio da composição espacial da imagem e impõe seu talento entre os já famosos fotógrafos contemporâneos como Thomas Struth, Andreas Gursky e Jean -Marc Bustamante, que desenvolvem em suas obras um conceito plástico na fotografia.

Na época da reprodutibilidade técnica da fotografia, Walter Benjamin lamentou que o valor da exposição superasse decididamente o valor de cultuação e levasse ao desaparecimento da aura, o que fazia de cada foto um objeto único, especialmente quanto à ausência do Homem (1). Certamente, o Homem está ausente nas fotografias de Lucia Adverse, mas ao capturar através da arquitetura o espírito da cidade de Berlim, na presença estética da série “Der Sturm”, ela foi capaz de carregar um valor de culto intenso.
Dentro de suas luzes de eclipse preto e branco expressionista, ela restitui em cheio, plenamente e de forma vibrante, toda a sua aura.

Pascale Lismonde
Jornalista, Crítica de Arte, Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte A.I.C.A., França
(1) Walter Benjamin, A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica.