Universo Curvo


Lucia Adverse,
Fotógrafa Impressionista

Durante um mês, o claustro “Cloître des Billettes”, datado do início do século XV, transformou-se no cenário ideal para a apresentação do trabalho da fotógrafa Lucia Adverse, em Paris. A artista, nascida no Brasil em 1967, formada em Design de Interiores e Fotografia, utiliza o que foi no início um instrumento a serviço de seu trabalho, transformando-se à partir de 2005 em um meio de expressão pessoal, onde a arquitetura conserva um lugar determinante.
A série “Universo Curvo” é uma homenagem ao grande arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, falecido em 2012. No trabalho de Lucia Adverse um diálogo se estabelece confrontando pela primeira vez duas estéticas separadas por seis séculos, mas que contam com muitas similaridades: tanto nas abóbadas góticas, quanto nas curvas inspiradoras de Niemeyer, as formas vegetais estilizadas se unem à simplificação geométrica.
Esta foi uma boa oportunidade, para rever à luz da modernidade, o único convento medieval conservado no centro de Paris.

O primeiro contato que tive com o trabalho de Lucia Adverse, foi através de sua série “Entre Luz e Fusco”, fotos tiradas na Acrópole de Atenas durante a restauração do Pártenon em 2007 e que permitiram-me entender a qual ponto a fotografia poderia mudar a nossa percepção do mundo.
Enquanto os andaimes consternavam os visitantes vindos para admirar o monumento antigo, a artista conseguiu captar composições harmoniosas nas sombras projetadas no mármore pelas vigas metálicas. Posteriormente, escolhi também parte da série “Universo Curvo”, para ilustrar o curso intitulado “A Relação Entre o Artista e o Mundo Real na Arte Contemporânea”, ministrado por mim no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), Paris.

É importante portanto, reconhecer o valor e o papel da fotografia na História da Arte, desde o Século XIX até aos dias de hoje: o nascimento do Impressionismo deve muito à invenção do daguerreótipo, inclusive porque em 1874, foi no estúdio do fotógrafo Nadar, que Claude Monet e os seus companheiros, organizaram as suas primeiras exposições. Na época, ao invés de considerarem a fotografia como uma ameaça ao futuro da pintura, eles descobriram os fundamentos de uma nova reflexão artística.
Para o impressionista, não existe portanto a representação objetiva da realidade. Toda realidade depende da interpretação dada pelo artista, prolongada pelo observador da obra. Quando a fotografia se limita à uma representação exata dos objetos situados diante da câmera fotográfica, ela não é nada mais do que uma técnica. Quando a câmera escura vira um cadinho químico, onde as imagens da realidade fundem-se com o universo interior do fotógrafo, ela se torna arte.
É esta última dimensão que Lucia Adverse dá aos mais humildes objetos ao seu redor.
O olhar da artista sabe muito bem captar uma sombra, uma faixa monocrômica ou uma vara de metal, para escrever um poema, compor uma sequência musical, desenhar uma paisagem. Se eu me permitisse um trocadilho sobre a relação que a artista estabelece com a sua câmera fotográfica, eu falaria portanto, que Lucia Adverse torna sua objetiva, subjetiva.

A série “Universo Curvo” derruba portanto, o muro que alguns erigiram entre as artes ditas figurativas e a abstração. Transpondo um terreno de esporte em um jogo de luz e fusco, de cores e de formas, a artista tira de detalhes concretos, interpretações abstratas (Composição, Sinuosa I e II) ou correspondências com outros elementos figurativos (Montanha, Areia, Praia… ). Usando o símbolo, a metáfora e a metonímia, os títulos prolongam o efeito visual, criando às vezes até mesmo efeitos sonoros (Canção, Sinfonia…), sentimentos íntimos (Apaixonada, Alegria…), revelando pessoas (Mariana) ou nos dando visão cósmica (Noite estrelada, Via Láctea, Estrela Guia…).
Assim fica difícil “confinar” a arte de Lucia Adverse no domínio da fotografia.
A sua relação com a luz, o espaço, a forma, o rítmo, poderia também pertencer à pintura, à escultura, à arquitetura, ou mesmo à música, à caligrafia ou à dança.

O lugar que lhe serviu de modelo foi voluntariamente guardado em segredo, sendo que o itinerário da artista de origem brasileira, mas que viaja pelo mundo, contribui a nos confundir. Nenhum detalhe nos permite situar o solo em que as fotos foram feitas ou de identificar o local com qualquer terreno parecido no mundo, bem como a Impressão de Claude Monet não nos permite reconhecer o porto de Le Havre.
Temos aqui, portanto, um objeto retirado do espaço e do tempo, para ser transformado em uma obra de arte. O chão duro e granulado também se torna uma superfície que vai mudando com a luz, dependendo da interpretação da artista e do olhar dos visitantes, exatamente como a faixada da catedral, sempre renovada pela subjetividade de Monet no passado.

Lucia Adverse prova que, bem como a pintura, a fotografia pode ser impressionista !

Marc Soléranski
Historiador de Arte

 

Universo Curvo – Convergências Filosóficas

Através de uma carreira dedicada à observação fotográfica e um trabalho detalhista, seguindo um pensamento determinado ao aperfeiçoamento do olhar, a artista brasileira Lucia Adverse (1967), imerge-se no estudo do “universo curvo”, primeiramente tratado por Einstein e interpretado na modernidade por Oscar Niemeyer.
Com este novo trabalho, a fotógrafa nos apresenta uma série de grande força, baseada em pensamentos filosóficos e teóricos, vindos da antiguidade até aos dias de hoje.

A palavra universo, do latim “un” (união) e “vorsum” (direção), leva-nos a crer que a natureza, esse emaranhado de forças que nos envolve, desempenha um papel de geradora e renovadora do nosso próprio sistema.
Portanto, entendemos que o “universo curvo” é mencionado de forma poética por Oscar Niemeyer, numa convergência de idéias filosóficas e na tradução da teoria em sentimentos pessoais do arquiteto, que diz: “Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein”.
A frase de Niemeyer, vem também ilustrar de forma metafórica, o amplo período Modernista da História brasileira, que à partir da Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922, muda paulatinamente a produção artística e a visão de mundo da sociedade brasileira, criando à partir desta época a identidade nacional no Brasil.

É através da reflexão nas palavras de Oscar Niemeyer, que a artista Lucia Adverse se lança nesse novo trabalho fotográfico, dividindo com o arquiteto o mesmo sentimento, porém expresso através de seu olhar.
Formada em Design de Interiores e Fotografia, Lucia Adverse se alimenta de um forte domínio espacial e dá asas à sua imaginação para desenvolver seu novo projeto, utilizando-se de luz e sombra.
Com títulos distintos e cada qual com a sua razão, as obras nos transmitem a impressão de compartilharmos com a artista os detalhes do processo de criação e da liberdade de interpretação de seu trabalho abstrato.

É com grande prazer que apresento a nova série de Lucia Adverse e sinto-me honrado em abrir a todos os visitantes e colecionadores o “universo curvo”, na visão desta exímia fotógrafa contemporânea.

Ricardo Chaves Fernandes
Membro da A.I.C.A., França
Membro da A.A.H., Reino Unido
Membro da Associação dos Amigos do Palais de Tokyo, França