Série

Entre Forma e Presença

Um certo dia, na praia de Manguinhos, deparei-me com formas que me lembravam árvores: a água do mar, ao encontrar a areia, deixou linhas semelhantes a galhos e raízes. Os traços logo se desfizeram, mas por um momento lembraram a presença de uma fauna invisível, enraizada na memória do litoral.

Essas marcas, como árvores impressas pelo oceano, revelam o poder transformador da água e mostram que movimento e quietude coexistem. Cada onda, ao recuar, escreve padrões únicos e efêmeros — testemunhas silenciosas do eterno fluxo do tempo e da transitoriedade da existência humana.

A vida, tal qual o mar, flui em constante movimento. Cada maré traz desafios e a promessa de um novo começo, deixando marcas que um dia desaparecerão — pois nada é permanente, e dor e alegria são passageiras. Navegando pelas tempestades, aprendemos a aceitar que a única constância é a mudança, encontrando serenidade na certeza de que tudo se transforma, assim como os vestígios deixados na praia.

Há uma paisagem que não se oferece de imediato. Ela se contrai, se defende, cria espinhos, delimita distância. Aproximo-me. O que parecia superfície começa a se desdobrar. Galhos se tornam membros, raízes se elevam como estruturas internas, e algo, entre forma e presença, passa a me olhar de volta. Não fotografo apenas o que vejo. Fotografo aquilo que insiste em aparecer. A paisagem deixa de ser lugar. Passa a ser corpo. -Lucia Adverse
2011
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